Como fazer as coisas saírem do papel
Fiz algumas edições em 8 de maio de 2025 para esclarecer pontos que escrevi. Fiquei preocupado de ter desvalorizado o trabalho duro que dá construir produtos e queria deixar isso claro. Mantive aqui o texto original para referência. Não quero ofender ninguém, mas quero ser honesto sobre os desafios que a gente enfrenta, e posso ter ofendido sem querer. Peço desculpas e revisei o texto para ficar mais claro.
Times de produto costumam complicar demais.
Escrevem PRDs enormes, fazem pesquisa com usuário até a exaustão e seguem metodologias ágeis ao pé da letra. Mas no meio do caminho perdem de vista o ponto principal: entregar valor para os usuários.
Essa complicação é sintoma de cuidado. As pessoas querem fazer um bom trabalho, então empilham processo e documentação. Só que mais camadas não significam mais clareza. Muitas vezes só deixam tudo mais lento.
Times de produto costumam tratar os PRDs como o mapa definitivo da entrega: detalhados, bem pensados e baseados em pesquisa com clientes. E com razão.
Mas do ponto de vista da engenharia, esses documentos às vezes parecem otimizados para rastreabilidade e contexto, não para clareza de execução.
Isso não é crítica ao rigor nem à abordagem. Se muito, reflete o quanto o desenvolvimento de produto moderno ficou complexo. Mas quando estou construindo, preciso de um blueprint. Uma visão clara e simplificada do que se espera, de como funciona e de como o sucesso se parece em código.
Soma-se a isso as falhas de comunicação. Times têm jeitos diferentes de trabalhar. Sem linguagem comum nem alinhamento, essas diferenças abrem lacunas. E as lacunas geram atrasos.
Aí tem o MVP, mal compreendido e mal usado. Ele não é lançar uma versão meia-boca do produto. É uma aposta mínima entregável: uma hipótese testável, com só o suficiente construído para provar ou refutar alguma coisa. Se não colar? Mata e segue em frente.
“Keep It Simple, Stupid”, o velho princípio KISS, continua valendo. Simplicidade é subestimada. Principalmente quando você quer construir algo rápido com um time de gente inteligente que pensa cada um de um jeito.
Dave Thomas, um dos autores do Manifesto Ágil, disse bem:
“Agile has become a noun, and that’s the problem. We need to focus on agility.”
Agilidade é o objetivo. Não regras, não rituais, só capacidade de resposta. Você quer poder mudar de direção sem atrito.
O caminho é simplíssimo: menos inchaço, mais clareza.
Comece com blueprints de uma página. Só o essencial:
- Jornadas do usuário: quem está tentando fazer o quê?
- Prioridades MoSCoW: o que precisa ser feito e o que fica de fora?
Trate isso como documentos vivos. Deixe no Notion ou onde o time colabora. Quando algo mudar, atualize o blueprint. Avise o time. Se for uma mudança grande, marque um tempo para realinhar.
Essa é a sua fonte da verdade. Não uma ferramenta de PM, não um quadro do Jira.
Use o Linear (ou o Jira, se você se odeia) para acompanhar o que precisa ser feito. Não para registrar casos de borda nem o histórico de decisões. Se um caso de borda importa, ponha nos critérios de aceite ou registre no blueprint. Senão, não entulhe o quadro.
Na implementação técnica, engenheiros podem recorrer a UMLs, ERDs, diagramas de sequência, todo o arsenal de sempre. Esse é o mundo deles. Mas o resto do documento? É uma carta de Produto para Engenharia. E tem que ler como uma.
Clara. Focada. Sem enrolação.
E depois que algo está construído, testar não é assunto só de dev. Produto é dono da hipótese. Você conversou com os usuários. Você definiu o escopo. Agora volte e valide. Funcionou? Resolveu mesmo o problema?
Todo esse processo, quando está redondo, é uma máquina linda. Quando não está, é uma bagunça. Mas a solução não é mais processo. É menos. Na medida certa. O suficiente para alinhar as pessoas, não para paralisá-las.
Se quiser se aprofundar: